Entre Washington e Pequim, o custo da ambiguidade brasileira

A intensificação das restrições comerciais e tecnológicas impostas pelos Estados Unidos a empresas chinesas estratégicas — sobretudo nos setores de semicondutores e inteligência artificial — ao longo de 2025 e 2026, consolidou um ambiente de competição sistêmica que transcende o comércio e alcança a própria arquitetura do poder global. Em resposta, a China aprofundou sua estratégia de resiliência econômica e expansão de influência por meio de investimentos externos e acordos bilaterais, inclusive com economias emergentes. É nesse contexto que o Brasil reafirma, com frequência, sua intenção de manter autonomia frente aos dois polos. A questão que se impõe, contudo, é menos declaratória e mais operacional: trata-se de uma estratégia consistente ou de uma ambiguidade que, no limite, reduz sua capacidade de influência?

A ideia de autonomia estratégica, quando levada a sério, exige mais do que equidistância retórica. Pressupõe capacidade de formular interesses próprios, traduzi-los em instrumentos de política econômica e sustentá-los por meio de densidade institucional. Nesse sentido, a atuação brasileira revela uma assimetria relevante: embora o país demonstre habilidade diplomática em preservar canais abertos com ambos os lados, ainda carece de um eixo estruturante que converta essa posição em vantagem concreta.

Washington

O problema não reside na tentativa de equilíbrio em si — historicamente, essa foi uma das marcas da política externa brasileira —, mas na ausência de coordenação entre política externa, estratégia econômica e desenho regulatório. Enquanto a relação com a China avança com base em fluxos comerciais e investimentos concentrados, sobretudo em commodities e infraestrutura, a interlocução com os Estados Unidos permanece ancorada em afinidades institucionais e financeiras, sem que isso se traduza, necessariamente, em ganhos estruturais equivalentes. O resultado é uma inserção internacional que oscila entre vetores distintos, sem consolidar um projeto claro de posicionamento global.

Há, aqui, um elemento frequentemente subestimado. Em um ambiente internacional cada vez mais mediado por instrumentos financeiros, padrões regulatórios e cadeias tecnológicas, a neutralidade tende a ser menos uma posição estável e mais um espaço de disputa. A ausência de alinhamento explícito não elimina pressões; ao contrário, pode ampliá-las, sobretudo quando o país não dispõe de mecanismos internos capazes de absorver ou redirecionar essas tensões.

Sob essa perspectiva, a ambiguidade brasileira pode deixar de ser um ativo e se tornar um passivo. Não por representar fragilidade diplomática, mas por revelar insuficiência estratégica. A diferença entre autonomia e ambiguidade não está no discurso de independência, mas na capacidade de transformar essa independência em arquitetura decisória. Sem isso, o país corre o risco de reagir a movimentos externos, em vez de antecipá-los ou moldá-los.

Um exemplo eloquente dessa dinâmica pode ser observado na forma como o Brasil se posiciona diante de temas emergentes, como digitalização financeira, padrões internacionais de compliance ou reconfiguração de cadeias produtivas. Em todos esses casos, o país participa, mas raramente lidera; adapta-se, mas dificilmente define parâmetros. Isso não decorre de falta de capacidade técnica, mas de ausência de coordenação estratégica entre diferentes esferas de decisão.

O ponto, portanto, não é escolher entre Washington e Pequim. Essa é uma falsa dicotomia, frequentemente útil ao debate político, mas limitada como instrumento analítico. A questão central reside em saber se o Brasil pretende operar como agente estratégico, capaz de extrair valor de múltiplas relações, ou se continuará a navegar entre polos de poder sem converter essa posição em influência efetiva.

Em um sistema internacional em transição, a margem de manobra existe — mas não é automática. Ela precisa ser construída. E, sobretudo, sustentada. A retórica da autonomia, por si só, não produz relevância. Em alguns casos, pode até ocultar sua ausência.

Mauricio Mendes Dutra, PhD